O papa Leão XIV fez na tarde de sexta-feira (6), na Praça da Independência, em Montevidéu, o primeiro discurso público de sua primeira viagem à América do Sul como pontífice. Falando a autoridades, representantes da sociedade civil e ao corpo diplomático, ele tratou de democracia, vida, família, trabalho, inteligência artificial, saúde e do lugar da religião num Estado laico. A chegada ao Uruguai, primeira etapa de um roteiro de 12 dias, foi tema de nossa cobertura anterior; aqui, o foco é o que o papa disse e quem o ouviu.

Quem estava na praça

Segundo o jornal uruguaio La Diaria, o papa foi recebido no aeroporto de Carrasco pelo presidente Yamandú Orsi e seguiu em comboio até a Praça da Independência. Na cerimônia estavam a vice-presidente Carolina Cosse, os ex-presidentes Julio María Sanguinetti, Luis Lacalle Herrera e Luis Lacalle Pou, e líderes de todos os principais partidos: Fernando Pereira (Frente Amplio), Álvaro Delgado (Partido Nacional), Andrés Ojeda (Partido Colorado), Guido Manini Ríos (Cabildo Abierto) e Pablo Mieres (Partido Independiente). Entre os representantes da sociedade civil estava Elena Zaffaroni, de Madres y Familiares de Detenidos Desaparecidos, que pediu ao papa que a Igreja uruguaia informe o que sabe sobre os desaparecidos da ditadura. A imprensa citou cerca de 30 mil pessoas no encontro, número atribuído a estimativas do Vaticano.

Em sua saudação, Orsi agradeceu ao papa por ser "uma voz clara no cenário internacional" e disse que a região é "um dos poucos cantos do mundo sem guerras", conforme a cobertura do diário argentino Perfil e de outros veículos. Em entrevista depois do evento, o presidente afirmou que o eixo escolhido pelo papa, o Êxodo do Povo Oriental de 1811, surpreendeu "inclusive todos os setores políticos" e que várias mensagens "obrigam a refletir".

O que o papa disse

O discurso usou como fio condutor os relevos de bronze do monumento a José Gervasio Artigas, que retratam o Êxodo do Povo Oriental. Segundo o Vatican News, ele lembrou os 40 anos ininterruptos de democracia do Uruguai, completados em 2025, e elogiou o uso sustentável dos recursos naturais, com energia elétrica gerada quase toda de fontes renováveis. Os principais pontos, conforme o Vatican News e o jornal espanhol El Debate:

  • Vida e família: "Quem ainda não nasceu já pertence à família humana e ao futuro do seu povo", disse, afirmando que a dependência da criança em relação à mãe não reduz sua dignidade. Acolher uma nova vida, segundo ele, exige o compromisso do pai, o apoio da família e condições sociais para criar os filhos.
  • Trabalho e inteligência artificial: citou a encíclica Laborem exercens e alertou para os riscos da automação acelerada, defendendo que as ferramentas digitais ampliem as capacidades humanas. Rejeitou medir o valor de uma pessoa pelo que produz.
  • Saúde: ao lembrar a cirurgia no pulmão direito para retirar um tumor maligno, há cerca de três semanas, disse ter sentido "na pele" os limites que a doença impõe. Afirmou que garantir cuidados de saúde a todos, independentemente dos recursos, "é uma responsabilidade que interpela toda a sociedade", e pediu o acompanhamento dos doentes até o fim natural da vida.
  • Solidão e suicídio: disse que ninguém deveria "sentir-se estranho entre os seus", e apontou a combinação de saúde, laços familiares e proximidade comunitária como resposta.
  • Laicidade: reconheceu que o Estado uruguaio é laico, mas afirmou que a neutralidade estatal não deve confinar a dimensão religiosa à esfera privada.
  • Integração regional: ao lembrar que Montevidéu é sede do Mercosul, disse que, numa época em que as diferenças viram facilmente confronto, perseverar no respeito ao direito, na negociação e na busca paciente de acordos é um serviço que o Uruguai pode continuar oferecendo aos vizinhos.

Os veículos divergiram no tom. Alguns, como o site La Ciudad, classificaram o discurso como "duro"; outros destacaram a mensagem de consenso e de bem comum. O texto integral não foi consultado: o resumo se baseia nos trechos publicados pelo Vatican News e pela imprensa.

Por que o Uruguai pesa na viagem

Como mostrou a reportagem do G1, o Uruguai é o país mais secularizado da América Latina: o percentual de católicos varia entre 33% e 38%, e só 9% da população se diz católica praticante. No Brasil, são 56%, e no Paraguai quase nove em cada dez. A separação entre Estado e Igreja é rigorosa, e a visita é a primeira de um papa ao país em 38 anos, desde João Paulo II em 1987 e 1988.

Orsi disse que a audiência privada que se seguiu aos discursos deu continuidade à conversa que os dois tiveram no Vaticano em outubro de 2025, quando o presidente convidou o papa, e que tratou de compromissos assumidos e do agradecimento ao trabalho social de organizações ligadas à Igreja. A imprensa uruguaia diverge sobre o local: a Presidência e o Vaticano indicaram o Edifício José Artigas, enquanto La Diaria cita o Palácio Estévez. A pauta não foi divulgada em detalhe. Depois, o papa recebeu a chave da cidade do intendente de Montevidéu, Mario Bergara, no Cabildo, e presidiu as vésperas na Catedral Metropolitana.

No voo, ao cruzar o espaço aéreo brasileiro, Leão XIV enviou telegrama ao presidente Lula, prática tradicional nas viagens papais. Lula respondeu nas redes agradecendo e reiterando o convite para que o papa visite o Brasil, país que ficou fora do roteiro.

O que vem a seguir

Segundo o programa divulgado pelo Vaticano e reproduzido pela imprensa uruguaia, o sábado (7) inclui missa em Paysandú, encontro com instituições católicas de ensino na Universidade Católica e vigília de oração no Estádio Centenario. No domingo (8), o papa visita o santuário da Virgem dos Trinta e Três, em Florida, celebra a segunda missa e segue para Buenos Aires. A Argentina (8 a 11 de novembro) terá Buenos Aires, Córdoba e Luján; o Peru (11 a 17 de novembro), onde ele foi missionário e bispo, terá Lima, Chiclayo, Cusco e Pucallpa.

Análise

O discurso toca em pontos em que a tradição liberal clássica e a doutrina social católica se encontram, e em outros em que se separam. O mais importante para o Estado de Direito é a defesa de que a autoridade pública existe para servir e opera dentro de limites constitucionais, ideia que o próprio papa buscou em Artigas. Hayek lembrava que a liberdade só é segura quando o poder é regido por regras gerais e previsíveis, e não pela vontade de quem governa. Quarenta anos de democracia ininterrupta valem pouco se o poder não for contido.

A defesa da vida, inclusive do não nascido, e da família como primeiro espaço de acolhimento dialoga com o princípio da não agressão: se a vida humana é o fundamento de todos os direitos de propriedade e de liberdade, a pergunta sobre quando ela começa é central, e não um detalhe. Também a fala sobre a laicidade merece atenção: liberdade religiosa não é privilégio de uma Igreja, e sim a liberdade de cada pessoa de viver e expressar sua fé, inclusive em público, sem que o Estado a imponha nem a proíba.

Já o trecho sobre saúde "ao alcance de todos" admite caminhos diferentes. Ele afirma uma responsabilidade da sociedade, não necessariamente do aparelho estatal. Mises e Bastiat advertiam que o que se vê de um gasto público (o hospital inaugurado) esconde o que não se vê (o que deixou de ser produzido por quem foi tributado). Famílias, igrejas, santas casas e associações voluntárias, que o papa citou ao falar de laços comunitários, são formas de assistência que dispensam coerção e muitas vezes chegam onde o Estado não chega.

Sobre trabalho e inteligência artificial, a história econômica sugere cautela com o receio da automação: Schumpeter, e antes dele a tradição austríaca de Menger e Böhm-Bawerk sobre capital e produtividade, mostram que ganhos de produtividade elevam salários reais no longo prazo, e a reação de regulamentar a tecnologia preventivamente costuma proteger quem já está empregado à custa de quem busca emprego. Por fim, o elogio ao Mercosul como foro de negociação é compatível com a defesa de comércio livre entre os vizinhos, desde que o bloco abra mercados em vez de servir de proteção a setores específicos.