O senador Flávio Bolsonaro (PL) afirmou em entrevistas divulgadas em 6 de novembro de 2026 que pretende trabalhar como advogado ou empresário nos Estados Unidos caso decida permanecer no país. Ele está em solo americano desde 28 de outubro, depois da derrota para Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno, e disse que não pretende voltar ao Brasil enquanto considerar que não haverá julgamento imparcial.
O que ele disse sobre trabalho e sustento
Segundo o Estado de Minas, que reproduziu entrevista concedida ao jornalista Glenn Greenwald e publicada pela Folha de S.Paulo, Flávio disse ter reservas para a fase inicial, mas que precisará trabalhar se a estadia se prolongar, como qualquer pessoa que vem de fora. Afirmou que sua principal renda vem da iniciativa privada, como advogado, e não da política.
- Advocacia: admitiu desconhecer as regras para exercer a profissão nos EUA.
- Empresa: citou a Bravo Grafeno, da qual é sócio, que fabrica capacetes com grafeno no Brasil.
- Moradia: ele, a esposa Fernanda e as filhas ainda avaliam onde morar; Miami foi descrita como cara em aluguel e alimentação.
- Situação migratória: deve ser definida nos próximos dias, segundo a reportagem.
Mandato e motivo da saída
De acordo com o Estado de Minas, no dia seguinte ao segundo turno (25 de outubro) o ministro do STF Alexandre de Moraes determinou a retenção dos passaportes de Flávio e a proibição de deixar o país. O senador viajou sem avisar aliados, passando por Argentina e Equador, e entrou nos EUA em 28 de outubro. Em entrevista ao SBT News, disse que não teria julgamento justo no Brasil e que não repetirá o que chamou de "erro" de seu pai, Jair Bolsonaro, de voltar ao país depois de uma temporada na Flórida. Jair foi condenado em setembro de 2025 por tentativa de golpe de Estado e crimes relacionados, segundo o SBT News. Flávio acusou Moraes de perseguição, sem apresentar provas. As reportagens lidas não relatam ação penal contra Flávio.
Ele afirmou que não vai renunciar ao mandato, que vai votar de forma remota quando houver essa possibilidade, e que o recurso foi usado recentemente na votação da PEC da Segurança Pública. As fontes divergem sobre o fim do mandato: o Estado de Minas fala em janeiro de 2027 e o SBT News em fevereiro, quando a nova legislatura toma posse. O salário bruto de senador é de cerca de R$ 46 mil, segundo o SBT News.
Flávio também repetiu a alegação de fraude eleitoral, mas admitiu não ter provas concretas, e disse ver como "matematicamente impossível" Lula ter somado 10,3 milhões de votos entre os dois turnos. Afirmou que pretende disputar a eleição de 2030.
Quem pagou a viagem
O senador não revelou como foram custeados os deslocamentos, segundo o Estado de Minas, para não atrair investigações sobre terceiros. Negou apoio diplomático de Israel, Argentina ou EUA.
O que vem a seguir
Os próximos passos são a definição do status migratório e a decisão de onde morar. Em jogo está também a situação do mandato e das prerrogativas de senador depois de janeiro ou fevereiro de 2027, quando termina a atual legislatura.
Análise
A liberdade de trabalhar e empreender em qualquer lugar é um direito individual básico, e é natural que alguém que muda de país precise se sustentar com o próprio esforço. Nesse ponto, a fala do senador é banal: ninguém deveria ser tratado de modo especial por ser político, nem para o bem, nem para o mal.
A questão de fundo é outra, e vale para qualquer governo. O Estado de Direito exige que decisões que restringem a liberdade, como retenção de passaporte e proibição de sair do país, sigam o devido processo, com fundamentação pública e possibilidade real de defesa e recurso. A segurança jurídica deixa de existir quando o cidadão, seja de que lado for, passa a acreditar que o julgamento depende de quem julga. Por isso o debate sobre imparcialidade não pode ser tratado como disputa de torcida: a presunção de inocência vale para todos.
Isso não elimina a responsabilidade de quem ocupa um mandato. Afirmar fraude eleitoral sem provas, como o próprio senador admite, enfraquece as instituições que protegem a propriedade e os contratos, e a confiança no processo é um bem público. Quem pede respeito às regras precisa também respeitar o resultado das urnas e usar os recursos legais para contestá-lo.
Há ainda uma lição econômica simples. Mises lembrava que o indivíduo responde pelas consequências de suas escolhas. Um parlamentar que deixa o país e segue recebendo salário público e votando a distância mostra que a transparência sobre o custo dessa situação, para o contribuinte, é uma demanda legítima de qualquer eleitor.



