O empresário Leonardo Serrano, dono da agência de serviços de luxo Signature Luxury Services, relatou à Polícia Federal viagens e hospedagens do senador Ciro Nogueira (PP-PI) que, segundo ele, foram custeadas pelo banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. O depoimento foi divulgado em 6 de novembro de 2026 e integra a Operação Compliance Zero. Os fatos descritos são alegações em investigação: Ciro Nogueira não foi denunciado nem condenado, e a defesa nega irregularidades.
O que o empresário disse à PF
Segundo as reportagens consultadas, Serrano afirmou ter realizado cerca de 200 atendimentos para Vorcaro desde 2017, envolvendo viagens do banqueiro, de familiares e de amigos. Sobre Ciro Nogueira, ele teria relatado:
- hospedagem de luxo em Lisboa, estimada em cerca de R$ 90 mil, paga integralmente por Vorcaro;
- fornecimento de equipamentos de esqui ao senador em uma viagem a Courchevel, nos Alpes franceses, a pedido de Vorcaro, que teria enviado as medidas do parlamentar;
- inclusão de Ciro em lista de convidados atendidos durante um fórum em Londres;
- segundo a apuração atribuída ao UOL e reproduzida por outros sites, reserva de uma suíte no hotel Park Hyatt, em Nova York, durante evento da Câmara de Comércio Brasil-EUA. Esse ponto aparece em reportagens que citam o UOL, e não foi confirmado de forma independente.
As reportagens lidas não trazem datas precisas nem valores para todas as viagens. Uma chamada de outra reportagem mencionava R$ 2 milhões para a viagem aos Alpes, mas o número não consta no texto principal e não foi confirmado, por isso não é tratado aqui como fato.
A menção ao presidente da Câmara
Serrano também citou uma reserva de hospedagem ligada ao presidente da Câmara, Hugo Motta. De acordo com as reportagens, o empresário disse não poder confirmar que o benefício foi usado, e os textos ressaltam que o relato não estabelece que Motta tenha recebido qualquer vantagem.
O que a PF investiga
A PF apura se viagens, mesadas e o uso de imóveis seriam contrapartida a atuação de Ciro Nogueira em projetos de interesse do Banco Master no Congresso. Em maio de 2026, segundo reportagem do Poder360 com base em informações da TV Globo, a PF já apontava ao menos três viagens internacionais ligadas ao senador (Paris, Nova York e Courchevel), repasses mensais de R$ 300 mil a R$ 500 mil e 265 depósitos em espécie que somaram R$ 3,5 milhões em menos de quatro anos. A casa do senador em Brasília foi alvo de buscas em 7 de maio, e o ministro André Mendonça, do STF, suspendeu naquele dia as atividades da empresa CNFL, administrada por um irmão de Ciro.
Os investigadores, de acordo com as reportagens, dizem que o custo das viagens deve ser avaliado junto com o restante das provas.
A defesa
A defesa de Ciro Nogueira nega ilegalidades e repudia insinuações sobre sua atuação parlamentar. Em maio, os advogados negaram que Vorcaro tenha financiado viagens do senador ou de familiares; confirmaram um encontro em Nova York, mas afirmaram que a passagem foi paga pelo próprio senador. Disseram ainda que os depósitos em espécie correspondem a vendas de uma loja de motos ligada a ele. Ciro fala em perseguição política. Nas reportagens consultadas sobre o depoimento de Serrano, não havia resposta específica da defesa a esse relato até a publicação; as reportagens também não traziam manifestação de Serrano, de Vorcaro ou de Motta.
O que vem a seguir
O depoimento é mais um elemento a ser cruzado pela PF com mensagens, comprovantes bancários e registros de viagem. Para virar acusação formal, o caso precisaria de denúncia e, por envolver senador, de decisão no Supremo Tribunal Federal.
Análise
Quando o dinheiro de um banco e o poder de legislar se encontram na mesma mesa, o problema deixa de ser o preço de um hotel em Lisboa. Se as suspeitas se confirmarem, o que está em jogo é a segurança jurídica: regras feitas no Congresso sob medida para um agente privado, em vez de regras gerais iguais para todos. Isso é o oposto do Estado de Direito e do livre mercado, que pressupõem concorrência sem favores e leis impessoais.
Hayek ensinou que a lei deve valer igualmente para todos, sem privilégios. Quando o Estado tem poder para regular crédito, garantir depósitos e decidir quem sobrevive, abre-se uma porta lucrativa para quem quer comprar influência. É a lógica que a escola austríaca descreve: quanto mais o poder político decide o resultado econômico, mais vale a pena investir em quem decide, e não em produzir valor. Bastiat chamaria de o que se vê (o banco que cresce) e o que não se vê (o poupador e o contribuinte que pagam a conta quando o arranjo desaba).
Há também uma lição de responsabilidade individual e de presunção de inocência. Uma alegação feita em depoimento não é prova, e vale para qualquer político, de qualquer partido, que ele tenha direito à defesa e a um julgamento justo. A cobrança legítima do eleitor é por transparência: agenda pública, declaração de bens e rastreabilidade de quem financia quem.
A saída de longo prazo está em menos poder discricionário concentrado em Brasília. Menos intervenção significa menos o que vender. Enquanto o Estado distribui favores, sempre haverá quem pague por eles.



