O que o deputado disse

O deputado federal Otoni de Paula (PSD-RJ), pastor e ex-aliado da família Bolsonaro, declarou voto no presidente Lula (PT) e afirmou que pretende promover um encontro entre o candidato e lideranças evangélicas caso houvesse segundo turno. Segundo o SBT News, em reportagem de 3 de outubro de 2026, ele disse a Lula: "Eu vou rodar esse Brasil para conversar com meus irmãos", e acrescentou que "eles querem te ouvir".

De acordo com a mesma reportagem, Otoni deixou a campanha de Ronaldo Caiado (PSD) e anunciou o voto em Lula ainda no primeiro turno. Os dois se encontraram no Rio de Janeiro na mesma semana. O deputado afirmou que votaria no PT pela primeira vez para barrar Flávio Bolsonaro (PL) e que pretende fortalecer o movimento chamado "Direita com Lula". O segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro acontece neste domingo (25).

O cenário entre os evangélicos

A reportagem do SBT News cita pesquisas segundo as quais a maioria dos evangélicos pretende votar em Flávio Bolsonaro, enquanto Lula lidera entre os católicos. A diferença teria aumentado após a polêmica envolvendo Nossa Senhora Aparecida. A matéria não registra reações de outros políticos, campanhas ou entidades religiosas à declaração do deputado.

Um histórico de idas e vindas

Otoni de Paula foi vereador no Rio de Janeiro de 2017 a 2019 e está na Câmara dos Deputados desde 2019. No governo de Jair Bolsonaro, foi vice-líder do governo na Câmara. Depois rompeu com o ex-presidente e chegou a dizer, em discurso, que se arrependia de tê-lo tratado como "mito".

Já em outubro de 2024, a Gazeta do Povo registrou que ele elogiou Lula numa cerimônia no Palácio do Planalto, disse que "Deus usou Lula" para sancionar leis favoráveis aos evangélicos e orou com imposição de mãos sobre o presidente. Na ocasião, negou ser "ponte" entre Lula e os evangélicos ("ponte de oração", segundo ele) e afirmou ao jornal O Globo que continua sendo de direita. O deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) reagiu no X chamando a atitude de "patética" e dizendo que "cabe a Deus julgar".

Análise

Esta seção é a leitura editorial do Tendência News, que adota uma linha liberal.

Mudanças de lado na política não são ilegítimas: o eleitor e o parlamentar têm liberdade de rever apoios. O ponto que merece atenção é outro, o uso de púlpitos e lideranças religiosas como ativo de campanha, de qualquer lado. Numa república laica, a fé de cada um é assunto privado, e o voto deve ser disputado com propostas, não com a autoridade de um líder religioso. O mesmo vale para o outro campo, que também mobiliza igrejas. Cabe ao eleitor avaliar programas, compromisso com as instituições e responsabilidade fiscal, e não o rótulo de quem apoia quem.