Bancos, corretoras e consultorias passaram a trabalhar, nas últimas semanas, com um quadro de crescimento baixo e inflação alta para a economia brasileira em 2027, combinação que o mercado chama de estagflação. A revisão se intensificou depois do segundo turno da eleição, vencido pelo presidente Lula (PT), e foi reforçada pela decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de interromper os cortes de juros em 4 de novembro, segundo reportagem da Gazeta do Povo.
O que é estagflação
Estagflação é a situação em que a atividade econômica cresce pouco, ou recua, ao mesmo tempo em que os preços sobem acima do esperado. É um quadro incômodo para a política econômica porque os remédios usuais se contradizem: juros mais altos combatem a inflação, mas pesam sobre o crescimento e o emprego.
Os números das revisões
O alerta mais forte veio do Itaú BBA, que atualizou seu cenário em 30 de outubro, segundo o Jornal do Brasil. Para 2027, o banco elevou a projeção de inflação (IPCA) de 4,6% para 6,1%, o que fica 1,6 ponto percentual acima do teto da meta (4,5%). A estimativa de crescimento do PIB caiu de 1,2% para 0,5%, contra 2,3% de expansão registrada em 2025. Para a Selic, o banco abandonou a previsão de 12,5% no fim de 2027 e passou a projetar 13,75% ao longo de todo o ano.
Outras projeções citadas pela Gazeta do Povo:
- ASA: em 13 de outubro, cortou a previsão de PIB de 2027 de 1,5% para 1% e manteve a Selic em 12% no fim do ano.
- BGC Liquidez: levantamento de 31 de outubro apontou mediana de 5,3% para a inflação de 2027; 11% dos participantes projetavam alta acima de 6%.
- Anbima: elevou o IPCA de 2027 de 4,3% para 4,9% e reduziu o PIB de 1,34% para 1%.
- Tendências: o economista Silvio Campos Neto projeta PIB de 0,7% em 2027 e diz que a desaceleração "já está contratada" para o ano que vem.
Segundo o JB, o Itaú também prevê desemprego de 6,5% em 2027 (5,7% em 2026), câmbio de R$ 5,60 por dólar no fim de 2027 e resultado primário de 0,6% do PIB negativo. O banco cita medidas sobre combustíveis, câmbio mais fraco, prêmio de risco maior, incerteza fiscal e política monetária apertada. Diz ainda que seria necessário um ajuste fiscal de cerca de 4 pontos percentuais do PIB.
A decisão do Copom
Em 4 de novembro, o Copom manteve a Selic em 13,75% ao ano, por unanimidade, encerrando uma sequência de cinco cortes de 0,25 ponto percentual, segundo a Gazeta do Povo. No comunicado, o colegiado descreveu a taxa como "substancialmente contracionista" e apontou maior incerteza, expectativas de inflação mais elevadas e desaceleração mais acentuada da atividade. Falou em "serenidade e cautela" na condução da política.
As projeções do Copom para o IPCA passaram de 5,2% para 5,6% em 2026 e de 3,9% para 4,7% em 2027, ambas acima do teto de 4,5%, conforme a Gazeta. Há diferença em relação ao Itaú, que projeta 5,2% para 2026 e 6,1% para 2027: são instituições com modelos e datas distintas.
Reação do mercado
Entre 23 de outubro, último pregão antes do segundo turno, e 4 de novembro, o Ibovespa caiu cerca de 18,5% e o dólar subiu 8,7%, de R$ 5,04 para R$ 5,48, segundo a Gazeta do Povo. No pregão seguinte à eleição, a queda do índice foi de 13,88%, e as empresas listadas na B3 perderam cerca de R$ 734 bilhões em valor de mercado, de acordo com a mesma reportagem.
A comparação com 2014 e 2015
Em janeiro de 2015, na virada para o segundo mandato de Dilma Rousseff, o país tinha inflação de 6,41% em 12 meses, PIB de 0,5% em 2014 e Selic de 11,75%. Veio então a queda do PIB em 2015 e 2016, a pior recessão desde a redemocratização.
Os economistas ouvidos pela Gazeta ressaltam diferenças. Para Silvio Campos Neto, a origem era outra: em 2014-2015 havia intervenção estatal intensa, crédito subsidiado e forte dependência do BNDES e das estatais; hoje, a situação fiscal é pior, com dívida e juros mais altos e endividamento privado elevado. A dívida bruta subiu 11,2 pontos percentuais do PIB no atual governo e chegou a 82,9% do PIB em setembro de 2026, segundo dados do Banco Central citados pela reportagem; as despesas obrigatórias comprometem 94% do Orçamento da União.
João Mário de França, da FGV Ibre, considera o cenário "de fato preocupante" e diz que o modelo de crescimento baseado em impulsos fiscais mostra sinais de esgotamento. Na avaliação dele, só um ajuste fiscal crível evitaria a estagflação.
O que diz o governo e o que vem a seguir
O governo não sinalizou mudança na condução fiscal e monetária. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, descartou o tabelamento de juros, ideia que recebeu apoio de integrantes do PT. Em 5 de novembro, Lula se reuniu com Durigan, Fernando Haddad, Guido Mantega, o presidente do BC Gabriel Galípolo e outros auxiliares; Durigan disse que não se discutiram medidas fiscais e que um levantamento será apresentado ao presidente após a COP31. O Estadão informou que Lula deveria fazer pronunciamento neste domingo (8), segundo a Gazeta. Está indefinido quem comandará a equipe econômica no próximo mandato.
Projeções são estimativas e mudam com os dados. O que se sabe até aqui é que o mercado revisou o cenário para pior em poucas semanas e que a trajetória dependerá das contas públicas, do câmbio e dos preços dos combustíveis.
Análise
A escola austríaca ensina que inflação e estagnação não são opostos, como supunha a curva de Phillips, mas faces do mesmo erro. Para Mises, a expansão artificial do crédito e do gasto distorce os preços relativos, induz investimentos que não se sustentam e cobra a conta depois, em forma de preços altos e ajuste doloroso. A teoria austríaca dos ciclos, de Mises e Hayek, descreve exatamente esse tipo de hangover.
O dado central do artigo é fiscal: dívida bruta de 82,9% do PIB, despesas obrigatórias consumindo 94% do Orçamento e um ajuste estimado em 4 pontos do PIB. Quando o Estado gasta mais do que arrecada, financia-se com impostos, dívida ou inflação, e as três saídas transferem custo ao cidadão que produz. Os juros de 13,75% são o preço desse desequilíbrio: o capital que o governo toma emprestado deixa de financiar empresas e famílias.
O debate sobre tabelamento de juros, que o ministro descartou, merece o mesmo ceticismo. Tabelar o preço do dinheiro não cria poupança; só racionaliza o crédito, como a história de controles de preços mostra. Hayek chamava de pretensão do conhecimento a ideia de que planejadores podem fixar preços melhores do que o processo de mercado. Bastiat pediria atenção ao que não se vê: o crédito que deixa de existir quando o preço é congelado.
A comparação com Dilma é útil, mas vale para qualquer governo: o remédio austríaco é o mesmo, gasto menor, regras fiscais críveis e segurança jurídica para a propriedade e o investimento. Um ajuste pelo lado da despesa, e não por mais impostos, reduz o prêmio de risco sem sacrificar quem produz. Aumentar a carga tributária para fechar a conta seria repetir, com sinal trocado, o erro de gastar sem lastro.



