O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central manteve a taxa Selic em 13,75% ao ano na quarta-feira (4 de novembro de 2026), por unanimidade. A decisão interrompe uma sequência de cinco cortes de 0,25 ponto percentual que havia levado os juros de 15% ao nível atual. Foi a 282ª reunião do colegiado, segundo o site Sou Brasília.

Antes da decisão, o mercado estava dividido: em levantamento do Projeções Broadcast com 75 instituições, 39 esperavam corte de 0,25 ponto, para 13,50%, e 36 apostavam em manutenção, segundo a CNN Brasil. Já uma pesquisa da Bloomberg com 18 economistas, feita de 27 a 29 de outubro, apontava 10 a favor da pausa e 8 por novo corte, conforme o Sou Brasília. Nosso texto anterior sobre a expectativa trata desse impasse.

O que o comunicado diz

Segundo o Money Times, que comparou o texto com o da reunião anterior, o comunicado afirma que o ambiente externo ficou mais incerto, com o prolongamento dos conflitos no Oriente Médio e pressão altista sobre o petróleo e derivados, e que as economias avançadas mantêm política monetária mais restritiva. No cenário doméstico, os indicadores mostram "moderação mais acentuada da atividade econômica", principalmente em setores cíclicos, e o mercado de trabalho dá sinais de desaquecimento na margem.

O Copom afirma que manter a taxa "é compatível com a estratégia de convergência da inflação para o redor da meta".

Projeções de inflação

| Horizonte | Projeção anterior | Projeção atual | |---|---|---| | IPCA de 2026 | 5,2% | 5,6% | | 2º trimestre de 2028 (horizonte relevante) | 3,2% | 3,5% |

A projeção para 2026 está acima do teto da meta, de 4,5%, de acordo com o Money Times.

Divergência sobre a surpresa

As fontes não concordam sobre o quanto a decisão surpreendeu. O Money Times a descreveu como em linha com o esperado pelo mercado. O Sou Brasília, citando a Agência Brasil, diz que a decisão foi classificada como surpresa, embora parte das instituições já apostasse na pausa. Os números do levantamento do Broadcast, com 39 a favor do corte e 36 pela manutenção, mostram que não havia consenso.

Contexto e próximos passos

Segundo o Sou Brasília, a Selic ficou em 15% de junho de 2025 a março de 2026, o maior nível em quase 20 anos, e o último corte foi anunciado em setembro. O IPCA-15 de outubro ficou em 0,32%, ajudado pela queda nas contas de luz.

O mesmo site informa que o comitê está desfalcado: os mandatos dos diretores Renato Gomes (Organização do Sistema Financeiro) e Diego Guillen (Política Econômica) terminaram no fim de 2025 e o presidente Lula ainda não enviou os substitutos ao Congresso. O Relatório de Política Monetária sai no fim de novembro e a última reunião do ano está marcada para 8 e 9 de dezembro. O comunicado não indica o que o Copom fará nas próximas reuniões.

Para o peso dos juros nas contas públicas, veja também quanto cada ponto da Selic custa ao Tesouro.

Análise

A pausa no ciclo de cortes mostra um problema que a escola austríaca descreve há décadas: a taxa de juros é um preço, o preço do tempo, e quando um comitê de poucas pessoas tenta fixá-lo, ele precisa adivinhar informação que está dispersa entre milhões de agentes. Hayek chamou isso de problema do conhecimento. O próprio Copom, que na reunião anterior projetava 5,2% de inflação para 2026 e agora projeta 5,6%, ilustra a dificuldade de acertar o rumo de variáveis que ninguém controla.

O dado central é que a inflação projetada está acima do teto da meta mesmo com juros em 13,75%. Para Mises, a inflação de preços é consequência da expansão de moeda e crédito, e não um acidente externo; petróleo e conflitos no exterior mexem em preços relativos, mas a alta persistente do nível geral de preços depende da oferta de moeda e do gasto público que a pressiona. Quem paga a conta é quem poupa e quem vive de renda fixa em reais, que vê o poder de compra encolher.

Há ainda a questão fiscal. O Tesouro estima que cada ponto da Selic custa R$ 400 bilhões até 2030, como mostra o artigo linkado acima. Juros altos são, em boa parte, o reflexo de um Estado que toma muito crédito emprestado e gasta mais do que arrecada. A resposta coerente com a liberdade individual e a propriedade privada passa menos por esperar o próximo corte do Copom e mais por cortar despesa, reduzir a dívida e garantir regras estáveis, de modo que o custo do dinheiro caia por si, e não por decisão administrativa.

Por fim, o fato de dois assentos da diretoria do Banco Central seguirem vagos há quase um ano, por falta de indicação do Executivo, reforça o argumento da segurança jurídica e institucional: a política monetária deve funcionar com regras previsíveis, e não depender da conveniência de quem nomeia.