Candidato a vice-presidente na chapa de Flávio Bolsonaro (PL), o deputado federal Alfredo Gaspar (PL-AL) chega ao segundo turno, neste domingo (25), depois de 70 dias de campanha marcados por uma agenda intensa de atos no Nordeste e por presença discreta na propaganda eleitoral, segundo levantamento da Folha de S.Paulo.

Quem é

Natural de Maceió, Gaspar tem 56 anos, é advogado e ex-promotor de Justiça. Foi procurador-geral de Justiça e secretário de Segurança Pública de Alagoas, cargo que ocupou no governo Renan Filho (MDB). Em 2020 disputou a prefeitura de Maceió pelo MDB e perdeu no segundo turno para JHC, hoje governador eleito pelo PSDB e aliado dele. Em 2022 foi eleito deputado federal pelo União Brasil, como o segundo mais votado do estado, e só se filiou ao PL em março de 2026, a convite de Flávio.

Ganhou projeção nacional como relator da CPI mista do INSS, em que vinculou as fraudes em aposentadorias e pensões ao governo federal e a Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Lula (PT). À Justiça Eleitoral declarou patrimônio de R$ 564,7 mil, que inclui casas e terrenos em Maceió e em Marechal Deodoro (AL), dois carros e cotas de um posto de combustível.

Como virou vice

Segundo a Folha, ele foi indicado menos de 24 horas antes do anúncio da chapa. A busca por um vice do PL se intensificou depois que o partido ficou sem o apoio de PP e Republicanos. Um amigo do deputado contou ao jornal que ele estava em Maceió quando recebeu a ligação de Flávio, em 4 de agosto. Inicialmente, Gaspar seria candidato ao Senado por Alagoas. A escolha, de acordo com o jornal, também buscou aproveitar o desgaste do governo Lula com o escândalo da Previdência e fortalecer a campanha no Nordeste, região em que o PT tem vantagem histórica em eleições presidenciais desde 2006. A indicação ainda ajudou a selar, em Alagoas, uma aliança entre JHC e o senador eleito Arthur Lira (PP).

A campanha

No Nordeste, Gaspar liderou uma motociata em Propriá (SE) e subiu em trio elétrico em Fortaleza, afastando a imagem sisuda de ex-promotor. Nas redes, onde tem 1,1 milhão de seguidores no Instagram, concentrou as postagens nas agendas da região e no caso do INSS, e nas últimas semanas na empresária Roberta Luchsinger, amiga do filho de Lula investigada por suspeita de tráfico de influência. Não pagou para impulsionar nenhuma publicação nos perfis oficiais, segundo a biblioteca de anúncios da Meta consultada pela Folha.

Polêmica e defesa

Em parte da campanha, Gaspar foi associado a um pedido de investigação por suspeita de estupro de vulnerável, arquivado pelo Supremo Tribunal Federal (STF). A campanha de Lula levou o caso ao horário eleitoral, mas a Justiça Eleitoral suspendeu o vídeo. Gaspar classifica a acusação como um ataque criminoso de opositores, feito quando era relator da CPI, e move ação contra o deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) e a senadora Soraya Thronicke (PSB-MS) por calúnia, denunciação caluniosa, injúria e coação no curso do processo. Em outro episódio citado pela Folha, quando era procurador-geral de Justiça, seu filho foi nomeado para a direção da agência agropecuária estadual; na ocasião, ele disse que não teve relação com a nomeação.

Análise

Esta seção é a leitura editorial do Tendência News, que adota uma linha liberal.

O vice raramente decide uma eleição presidencial, mas sua escolha informa sobre as alianças de uma candidatura. No caso de Gaspar, o perfil de ex-promotor e relator de CPI conversa com uma demanda que a linha editorial considera central: transparência e controle sobre o uso de dinheiro público, no caso dos descontos indevidos a aposentados. O mesmo critério vale para todos os lados. A trajetória política dele, que passou por MDB, União Brasil e PL, e as questões de nepotismo levantadas no passado mostram que o escrutínio sobre quem pede rigor é parte do jogo. A presunção de inocência vale para o vice como vale para qualquer investigado, e o arquivamento da apuração pelo STF deve ser lembrado ao lado das acusações.