Um levantamento do jornal Estado de Minas com dados do Inmet para julho a setembro de 2026 aponta que Minas Gerais já registra sinais compatíveis com o "super" El Niño: chuvas intensas em curto intervalo, sequências de dias quentes e uma tempestade de ventos incomuns em Belo Horizonte. A própria reportagem e um especialista consultado ressalvam, porém, que dez anos de dados não bastam para estabelecer padrões climáticos.
Nossa cobertura anterior explicou o que muda no clima do Brasil com o El Niño e o recorde de temperatura no Pacífico costeiro. Aqui, o foco é Minas.
Os números do levantamento
- Tempestade de 25 de outubro: no domingo de eleições, a tempestade em Belo Horizonte deixou mais de 221 mil unidades consumidoras sem energia, com ventos de 90 km/h que derrubaram árvores e telhados. Nos últimos dez anos, a média mais intensa desses ventos havia sido de 56,88 km/h, em 2021, segundo o Inmet.
- Chuva em uma hora: o recorde do trimestre na região Central foi de 79,2 mm em Belo Horizonte, em 3 de julho. O anterior para a mesma época era de 70,2 mm/h, em Três Marias, em 12 de julho de 2018.
- Juiz de Fora: 88,8 mm em um dia, em 2 de julho de 2026. O segundo maior volume diário foi de 87,6 mm em Viçosa, em 3 de julho de 2024, também ano de El Niño forte.
- Triângulo Mineiro: média de máxima por hora de 3,7 mm/h em 2026, acima dos 2,9 mm/h de 2019.
- Vale do Rio Doce: a atual sequência de dias acima de 30°C é a mais longa registrada, segundo a reportagem.
O que dizem os órgãos oficiais
O Painel El Niño 2026-2027, lançado por Inmet, Inpe e Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil, entre outros, indica que os modelos apontam permanência do fenômeno ao menos até o início de 2027, com anomalia que pode superar 2,5°C. Para o Sudeste, o painel registra seca fraca a moderada e temperaturas acima da média nos próximos meses, o que favorece a perda de umidade do solo. No Sul, o principal risco apontado é o de grandes inundações. A NOAA, segundo o jornal, estima em 100% a vigência de um fenômeno muito forte desde julho.
Risco em Belo Horizonte e região
Um modelo da Uniasselvi publicado pelo Estado de Minas estima 2,3 milhões de moradores de Belo Horizonte sob risco hidrológico alto e geológico médio nas bacias dos ribeirões Arrudas, Onça e Pampulha, além de 621 mil em Contagem e 411 mil em Betim. É uma estimativa de um modelo acadêmico, não um dado oficial da Defesa Civil.
O coronel Paulo Roberto Bermudes Rezende, chefe do Gabinete Militar do Governador e da Defesa Civil estadual, lembrou que em fevereiro e março de 2026 Juiz de Fora teve 66 mortes por chuvas, e que em alguns casos famílias precisarão ser removidas preventivamente de áreas de risco.
Saúde e agro
No último ciclo forte (2023/2024), segundo o Ministério da Saúde citado pelo jornal, Belo Horizonte teve 3.339 internações por arboviroses, alta de 605,9% sobre 2018/2019, e Minas Gerais registrou 25.995 internações, 550,5% acima do período anterior. Nota técnica do Ministério da Saúde e da Fiocruz projeta, para 2027, cerca de 1,7 milhão de casos de dengue no país e alta de 61,4% no Sudeste.
No campo, Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba respondem por 3,5 milhões de toneladas de soja (58% da safra do estado) e 2,5 milhões de toneladas de milho (32%), segundo levantamento da Uniasselvi, e estão sujeitos a perdas com extremos de chuva e calor.
Cautela
O professor Antoniel Fernandes, da PUC Minas, considera o monitoramento relevante, mas lembra que a Organização Meteorológica Mundial recomenda 30 anos de dados para definir uma normal climatológica, e as estações automáticas têm 10 a 15 anos. Portanto, os recordes citados são do período recente e não provam, sozinhos, que o El Niño é a causa.
Serviço
- Evite áreas de alagamento e encostas e não atravesse ruas alagadas; em vendaval, afaste-se de árvores e redes elétricas.
- Elimine água parada em casa para reduzir criadouros do Aedes aegypti.
- Defesa Civil: 199. Bombeiros: 193. Alertas por SMS: envie o CEP para 40199.



