Um estudo publicado em 2 de novembro de 2026 na revista científica americana Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) relata sinais químicos e estruturas semelhantes a glóbulos vermelhos em ossos do Aratasaurus museunacionali, dinossauro carnívoro que viveu há cerca de 115 milhões de anos onde hoje fica Santana do Cariri, no Ceará. A pesquisa foi liderada por Kliti Grice, diretora do Centro de Geoquímica Orgânica e Isotópica da Universidade Curtin, na Austrália, e tem como coautor o paleontólogo Alexander Kellner, do Museu Nacional (UFRJ).

O que os pesquisadores encontraram

Segundo o relato do jornal O Globo, a equipe identificou no fóssil hemácias mineralizadas dentro de canais vasculares do osso, aminoácidos ligados ao colágeno e biomoléculas de heme intactas. O heme é o componente da hemoglobina que transporta oxigênio. Para Kellner, o ponto central é que o material estava no lugar esperado: "Não só havia sangue quanto esse estava onde deveria, isto é, dentro dos vasos", disse ao jornal.

De acordo com os pesquisadores, esta seria a primeira vez em que a presença de moléculas derivadas da hemoglobina nas células é demonstrada quimicamente em um fóssil desse tipo; estudos anteriores já haviam descrito possíveis estruturas de glóbulos vermelhos. Segundo reportagem do Gizmodo Brasil, a equipe usou microscopia e técnicas avançadas de análise química e comparou os resultados com amostras da rocha ao redor para descartar contaminação. Os autores indicam que o mineral hausmannita pode ter ajudado a preservar as estruturas.

Grice afirmou que a detecção de heme em células de 115 milhões de anos oferece uma "janela molecular direta" para a fisiologia de animais extintos e desafia a suposição de que moléculas como a hemoglobina não sobreviveriam ao chamado tempo profundo.

O que a descoberta não é

As reportagens consultadas são claras sobre os limites do achado. Não foram encontrados DNA de dinossauro, sangue líquido nem proteínas completas. Sinais de hemoglobina não significam que material genético tenha sobrevivido, já que o DNA se degrada com mais facilidade, e recriar dinossauros como no filme Jurassic Park segue fora de questão.

Também há ressalvas de especialistas. Segundo o Gizmodo Brasil, a paleontóloga Mary Schweitzer, referência no estudo de tecidos moles em fósseis, observou que as estruturas não têm exatamente o formato esperado para glóbulos vermelhos de dinossauros, embora considere relevantes as evidências químicas. A Live Science, ao noticiar o estudo, também registrou que nem todos os cientistas estão convencidos.

E o "sangue quente"?

O título de O Globo associa a descoberta à homeotermia, a capacidade de manter a temperatura corporal constante, o que, segundo o jornal, permitiria correr, caçar e migrar independentemente do clima. A ideia de que dinossauros tinham metabolismo semelhante ao de aves e mamíferos, e não ao de répteis, é uma das grandes questões da paleontologia, e há décadas de debate sobre ela. Outras reportagens sobre o estudo observam, porém, que o trabalho trata de sinais químicos e estruturas interpretadas como hemácias, e que dizer que ele "comprova" o sangue quente dos dinossauros seria um exagero. O alcance da conclusão metabólica segue em discussão na comunidade científica.

Um fóssil pequeno, com história

O aratassauro media pouco mais de três metros do focinho à cauda, chegava a cerca de 1,6 metro de altura e pesava em torno de 35 quilos, segundo as estimativas citadas por O Globo. Análises indicam que morreu jovem, por volta dos quatro anos. Seu corpo foi parar no fundo de um lago, em um ambiente que Kellner compara à atual Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio.

Do animal restou muito pouco: pouco mais que uma pata, com partes do fêmur, da tíbia e do pé direito. O fóssil foi descoberto em 2008 em uma mina de gipsita (gesso) na região de Santana do Cariri e levado ao Museu de Paleontologia Plácido Cidade Nuvens. Em 2016 seguiu para o Museu Nacional, no Rio, onde estava em preparação quando o prédio pegou fogo, em 2018. A área em que ele ficava não foi atingida pelas chamas. A equipe de Juliana Sayão, coautora do novo estudo, descreveu a espécie em 2020, em artigo na Scientific Reports. O nome homenageia o museu e o fato de o fóssil ter escapado ileso: vem do tupi ara (nascido) e atá (fogo) com o grego saurus (lagarto), "lagarto nascido do fogo".

Poeira de fóssil e o interesse para outros mundos

Como a análise exige moer a amostra, é preciso haver sobras do fóssil. Quando Grice visitou o Museu Nacional, havia pequenos fragmentos, pouco maiores que grãos de areia, resultantes da preparação da peça, suficientes para os espectrômetros do grupo da Curtin.

Os pesquisadores dizem que o método permitirá investigar a evolução do sangue, do metabolismo e dos níveis de atividade de animais antigos. Martin Van Kranendonk, diretor da Escola de Ciências da Terra e Planetárias da Curtin, afirmou que o trabalho redefine como estruturas moleculares podem ser preservadas por longos intervalos ou em condições hostis, com implicações para a astrobiologia e a busca por vida fora da Terra.

Participação brasileira

Além do Museu Nacional, participam do trabalho pesquisadores da Universidade Regional do Cariri (Urca) e de instituições da Alemanha, do Japão e dos Estados Unidos. O artigo se intitula "Heme signatures in mineralized red blood cells within vascular canals of a 115-million-year-old dinosaur bone" (DOI 10.1073/pnas.2614248123).