O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) disse nesta quinta-feira (5) que a economia do país precisa estar "arrumada" para atrair investimentos e que ninguém vai querer investir em uma "economia desordenada". A declaração foi dada na primeira reunião do Conselho para Industrialização de Minerais Críticos, horas depois de uma reunião de cerca de quatro horas no Palácio da Alvorada com ministros, ex-ministros e economistas para discutir o cenário econômico, um dia depois de o Banco Central interromper o ciclo de cortes da Selic.

O que Lula disse

Segundo o G1, Lula afirmou que o país precisa demonstrar seriedade para atrair capital e que investidores consideram fatores como segurança jurídica e responsabilidade fiscal antes de aplicar recursos. "Ninguém vai querer vir fazer investimento numa economia totalmente desordenada. As pessoas querem saber se nós estamos falando sério", declarou. Ele acrescentou que "é por isso que nós temos que ter responsabilidade jurídica" e "responsabilidade fiscal".

A fala ocorreu na primeira reunião do Conselho para Industrialização de Minerais Críticos, que aprovou nesta quinta a lista de minerais considerados críticos e estratégicos para o país, entre eles terras raras, grafita, níquel, potássio e nióbio.

A reunião no Alvorada

Pela manhã, Lula convocou o ministro da Fazenda, Dario Durigan, ex-ministros e economistas do PT para discutir medidas para a economia. O encontro começou por volta das 12h no Palácio da Alvorada e durou cerca de quatro horas. Participaram, além de Durigan, o vice-presidente Geraldo Alckmin; os ministros Bruno Moretti (Planejamento), Miriam Belchior (Casa Civil) e Esther Dweck (Gestão); os ex-ministros Fernando Haddad, Aloizio Mercadante e Guido Mantega; e os economistas Luciano Coutinho, Eduardo Moreira e Laura Carvalho.

Depois da reunião, Durigan disse a jornalistas que não há "fórmula mágica" para a economia brasileira e que o governo vai "manter compromissos fiscais", além dos compromissos sociais assumidos na campanha eleitoral. Segundo ele, houve "bastante convergência" nos diagnósticos e nos caminhos, e não foram discutidas medidas específicas.

Questionado se seriam necessários ajustes no arcabouço fiscal, conjunto de regras aprovado em 2023 para orientar os gastos públicos, o ministro respondeu que falar em melhora e em superávit nos próximos anos significa "reforçar as regras vigentes hoje", de modo a garantir a valorização de políticas públicas "de maneira sustentável". Ele também afirmou que "quem investe, quem produz nesse país não vai ter, neste governo, nenhuma dificuldade com relação à previsibilidade, regras claras".

Próximos passos

Durigan e Moretti vão analisar os pontos levantados no encontro, além dos que já estavam em estudo, e apresentar a Lula eventuais medidas quando ele voltar de compromissos internacionais. O ministro defendeu que tudo seja feito com "bastante método" e "previsibilidade". Não houve anúncio de medidas de contenção de despesas, que são aguardadas pelo mercado e por especialistas em finanças públicas.

No fim de semana anterior, circulou a informação de que Lula poderia receber André Lara Resende, um dos formuladores do Plano Real, para avaliar uma ideia do economista de reduzir os juros a até 7,5% ao ano e depois fixar um teto para a inflação e para a Selic, segundo o G1. A reportagem não detalha se o encontro foi confirmado.

O pano de fundo: Selic em 13,75%

Na quarta-feira (4), o Copom interrompeu o ciclo de cortes e manteve a Selic em 13,75% ao ano. A pausa era esperada pelo mercado após a alta do dólar e a piora das expectativas de inflação depois do segundo turno das eleições, segundo a Folha de S.Paulo. O Boletim Focus projeta IPCA de 5,2% em 2026 e 4,8% em 2027, acima do teto da meta de 4,5% citado pela Folha. Detalhes em Copom mantém Selic em 13,75%: analistas dizem que o futuro dos juros depende do governo Lula.

Petistas têm criticado o Banco Central pelos juros altos e pedido mudanças na política monetária, e aliados de Lula rejeitam um ajuste fiscal forte, enquanto economistas cobram um plano crível de redução do crescimento das despesas. O G1 não registra, nas matérias consultadas, resposta do Banco Central a essas críticas além da própria decisão do Copom.

Análise

O discurso do presidente acerta no diagnóstico: capital só fica onde há regras estáveis, e a poupança de quem investe não se submete a promessas. Mas a distância entre a frase e o orçamento é o ponto central. Dizer que é preciso responsabilidade fiscal ao mesmo tempo em que a base do governo rejeita um ajuste forte, e que se discute baixar os juros por vontade política, é pedir ao mercado que acredite em intenções.

Os juros não são um preço arbitrário que o Banco Central escolhe: refletem, na tradição austríaca de Ludwig von Mises, o preço do tempo e a escassez de poupança real, além do risco que o devedor, aqui o Estado, representa. Quando a dívida pública é considerada elevada para um país emergente, como lembra o próprio G1, o custo do dinheiro sobe para todos. Tentar baixar a taxa por decreto ou por pressão, como sugerem propostas de teto para a Selic, tende a gerar o que Mises descreveu como expansão artificial do crédito: alívio visível agora, inflação e distorções depois. É o velho "o que se vê e o que não se vê" de Frédéric Bastiat.

Há também o problema do conhecimento de que falava Friedrich Hayek: nenhuma reunião de quatro horas, por mais qualificada que seja, reúne a informação dispersa em milhões de decisões individuais. O que o setor produtivo precisa é de previsibilidade, ou seja, regras que não mudam ao sabor da conjuntura. O caminho mais curto para juros menores é cortar despesa, não o contrário. A mesma régua vale para qualquer governo: gasto crescente sem lastro será cobrado em imposto, inflação ou juros.