A crise que começou com uma frase de Kylian Mbappé num podcast ganhou, nos últimos dias, contornos de problema de negócios para a LaLiga. Depois que a TV chinesa deixou de exibir os jogos do Campeonato Espanhol no fim de semana, a pergunta que ficou no ar é simples: quanto a China pesa para o futebol espanhol e o que a liga está tentando salvar? A história do fim de semana está no texto anterior sobre a ausência dos jogos na TV chinesa. Aqui vai o que se sabe sobre os bastidores, com o que mudou desde então.
Um acordo fechado em agosto
Segundo o site Inside World Football, a LaLiga fechou em agosto um acordo de transmissão em TV aberta e por assinatura com a China Media Group, o grupo estatal que controla a CCTV, válido para esta temporada. A liga mantém escritório em Xangai desde 2014, informou o mesmo veículo. Ou seja: não é um contrato qualquer, e sim uma relação de uma década que acabou de ser renovada.
Valores do acordo não foram divulgados nos textos consultados. O jornal Diari de Tarragona observa que a suspensão das transmissões não significa, necessariamente, o cancelamento do contrato, mas cria incerteza. Não há, até agora, data anunciada para a volta dos jogos.
O que cada lado já disse
- Mbappé: pediu desculpas na terça-feira (27 de outubro) e afirmou que sua fala machucou muita gente na China, o que não era sua intenção, de acordo com a Inside World Football e a Al Jazeera.
- Real Madrid: na quarta-feira (28), pediu desculpas ao povo chinês pelo "desconforto" causado e disse manter profundo respeito pelo país, segundo a Al Jazeera. O Diari de Tarragona informa que a carta do clube foi enviada por meio da competição e que o recebimento foi confirmado pela China Media Group.
- LaLiga: o presidente Javier Tebas lamentou as declarações, pediu desculpas em nome da liga e citou uma relação de respeito, confiança e cooperação com autoridades, instituições esportivas e operadores audiovisuais chineses. A liga também destacou que a fala foi a título pessoal do jogador.
- Governo chinês: o porta-voz da chancelaria, Guo Jiakun, disse levar a sério o pedido de desculpas de Mbappé, segundo a Al Jazeera.
Patrocinadores e a conta que ainda não fechou
Mengniu e Dongpeng romperam com Mbappé, e a Al Jazeera e o Diari de Tarragona citam ainda uma terceira empresa (Milkground, ou Shanghai Milkground Food Tech; a Al Jazeera menciona também a Eastroc Beverage). Os relatos divergem quanto ao número exato de marcas, entre duas e três. A China Media Group também retirou anúncios com a imagem do atacante, de acordo com a Inside World Football.
Quanto isso custa em dinheiro, ninguém publicou. Os textos falam em perda "enorme" sem apresentar números, e esta reportagem não vai inventar nenhum.
Diplomacia de crise
Tebas montou uma unidade de crise e se reuniu com o embaixador chinês na Espanha. O UOL grafa o nome como Yao Ling; a Al Jazeera, como Yao Jing. A divergência é de transliteração e não foi esclarecida pelas fontes. Segundo a Al Jazeera, fontes da liga disseram que Tebas avalia viajar à China.
No domingo (1º), a plataforma Migu, que também tem direitos da LaLiga, retirou o jogo do Real Madrid contra o Racing Santander da grade, enquanto exibia as demais partidas da rodada, conforme a Al Jazeera. Em campo, o Real Madrid venceu por 3 a 0, como mostra o resumo da partida.
Por que a China importa para a liga
O Diari de Tarragona lembra que o mercado chinês, com mais de 1,4 bilhão de habitantes, é visto como estratégico pelas grandes ligas. Cita ainda que, segundo a BBC em 2020, a China era o território estrangeiro mais lucrativo em direitos de TV para a Premier League. Se a LaLiga ainda não está nesse patamar, quer chegar lá, e é por isso que a liga tratou o caso com unidade de crise, e não com uma nota de rodapé.
Há também um pano de fundo interno: dias antes, o Real Madrid havia pedido a renúncia de Tebas, após declarações do dirigente sobre a comunicação do clube. Agora, os dois lados precisam trabalhar juntos para convencer Pequim. Um raro caso em que o VAR da diplomacia manda os rivais para a mesma sala.
O que vem a seguir
Falta saber se a CCTV volta a exibir os jogos e quando, se a Migu mantém a restrição só ao Real Madrid e se a viagem de Tebas à China acontece.



