Quem esperava só samba e sertanejo na virada do Nordeste ganhou também uma novela de bastidores: a dupla Jorge e Mateus saiu da programação de Réveillon de Recife e de Fortaleza em menos de uma semana depois de ser anunciada. O motivo, segundo os veículos que cobriram o caso, foi a onda de críticas nas redes sociais ao posicionamento político de Jorge. Ele nega ter feito falas contra os nordestinos.
O que aconteceu
Os shows foram anunciados na última semana de outubro. A apresentação no Recife havia sido divulgada na quinta-feira (29), com data marcada para 27 de dezembro. Em Fortaleza, a dupla estava prevista para a festa de Réveillon 2027, que acontece nos dias 30 e 31 de dezembro.
Na noite de terça-feira (3), os dois prefeitos anunciaram, em vídeos nas redes sociais, que a dupla estava fora. O pano de fundo é a participação de Jorge em um encontro de cantores sertanejos que declararam apoio ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), então candidato à Presidência, realizado em 20 de outubro em Nerópolis (GO). Na ocasião, o cantor aparece cantando uma paródia de um de seus maiores sucessos: "Pode chorar, mas eu não voto no PT". O vídeo voltou a circular depois que a contratação foi divulgada.
O que dizem as prefeituras
No Recife, o prefeito Victor Marques (PCdoB) afirmou que "o final de ano é sempre momento de união, fraternidade e de estar junto com quem a gente ama" e que, justamente por isso, "não há mais clima para a apresentação da dupla Jorge e Mateus dentro da nossa programação". Segundo o ICL Notícias, dois dias antes, na segunda-feira (2), ele havia defendido a convivência entre pessoas de opiniões políticas diferentes diante das críticas à contratação. A festa será mantida.
Em Fortaleza, o prefeito Evandro Leitão (PT) não detalhou o motivo. Falou em "questões posteriores que geraram polêmica, tirando o foco do nosso real objetivo" e disse que o cancelamento do contrato foi acordado "de forma absolutamente legal". O g1 apurou com uma fonte da prefeitura que a decisão atendeu à má recepção do público nas redes. Uma atração ainda não divulgada vai ocupar o lugar da dupla.
A defesa de Jorge
Na quarta-feira (4), Jorge publicou uma nota nas redes sociais. Ele diz que as falas atribuídas a ele, "especialmente em relação ao Nordeste e ao povo nordestino, não são verdadeiras". "Nunca fiz essas declarações e jamais me referiria dessa forma a uma região pela qual tenho tanto carinho, admiração e respeito", escreveu.
O cantor afirmou ainda ter "gratidão imensa pelo povo nordestino" e lembrou que já conheceu todos os estados da região e cantou para milhares de pessoas. Ele fez questão de dizer que o esclarecimento é em nome próprio, e não de Mateus nem da trajetória da dupla. Até a publicação das reportagens consultadas, Mateus não havia se manifestado.
Que falas são essas?
Além do vídeo, circulavam nas redes supostas declarações atribuídas a Jorge sobre eleitores do PT e a compra de ingressos. Um dos comentários reproduzidos pelo g1 resume a reclamação: o problema, dizia o internauta, não seria deixar de votar no PT, mas ter dito que petista não teria dinheiro para comprar ingresso. Nenhum dos veículos consultados apresentou registro dessa frase, e o cantor nega que ela seja dele. Por isso, ela aparece aqui como alegação de internautas, não como fato.
Contexto eleitoral
O Nordeste é a região onde o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tradicionalmente tem mais votos. No Ceará, segundo o g1, Lula teve 4.036.124 votos no segundo turno e Flávio não venceu em nenhuma cidade do estado. É nesse clima que o nome da dupla chegou às prefeituras governadas por PT e PCdoB, e as caixas de comentário das contas oficiais se encheram de pedidos como "Cancela Jorge e Mateus!".
O que vem a seguir
Não há, até agora, informação sobre eventual medida da dupla contra os cancelamentos nem sobre multa contratual. Fortaleza diz que o desfazimento foi legal e acordado. Os substitutos ainda serão anunciados pelas prefeituras. Fica o recado de fim de ano: no palco do Réveillon, até a ordem dos artistas virou assunto eleitoral.



