A Polícia Federal pediu, em 16 de outubro, ao ministro André Mendonça, do STF, a prorrogação por 90 dias do inquérito que apura os pagamentos do ex-banqueiro Daniel Vorcaro ao filme Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro. A decisão de Mendonça sobre o pedido não havia sido divulgada nas matérias consultadas.
O que a PF alega
Segundo o delegado Anderson Rodrigo Andrade de Lima, a prorrogação é necessária para concluir perícias contábeis e aguardar um pedido de cooperação internacional com os Estados Unidos, para obter registros financeiros de entidades estrangeiras que teriam recebido repasses. Os investigadores analisam documentos entregues por Antônio Carlos Freixo Júnior, empresário e delator no caso Master, que apontariam repasses ao fundo Havengate Development, criado nos EUA para receber os pagamentos do filme.
Como o caso chegou ao STF
O deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) pediu a investigação sobre o pedido de dinheiro feito pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, a Vorcaro para custear as gravações. A conversa foi revelada pelo site The Intercept. Flávio passou a ser investigado no inquérito.
Em documentos tornados públicos por Mendonça em 11 de setembro, a PF afirmou haver indícios de que Flávio foi "interlocutor direto" de Vorcaro nas negociações do financiamento, o que incluiria cobranças e reuniões. Segundo o Intercept, o pedido teria sido de cerca de R$ 131 milhões, e planilhas da PF indicariam que ao menos R$ 60 milhões foram pagos. São apurados lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção. Trata-se de investigação, não de condenação, e as informações são das conclusões da PF e da reportagem citada.
O que dizem os citados
Flávio Bolsonaro nega ter combinado qualquer vantagem indevida e sustenta que os recursos eram privados e a relação com Vorcaro, de natureza exclusivamente privada. As matérias consultadas não trazem manifestação atualizada de Vorcaro, da Havengate ou de Freixo Júnior sobre o pedido de prorrogação.
Análise
Esta seção é a leitura editorial do Tendência News, que adota uma linha liberal.
Num ano eleitoral, o episódio testa dois princípios que o liberalismo defende para qualquer partido: a presunção de inocência e a transparência no uso de dinheiro ligado a quem disputa o poder. Investigado não é culpado, e conclusões da PF dependem de contraditório e de decisão judicial. Ao mesmo tempo, a relação entre candidatos e financiadores de um banco sob suspeita de fraude exige explicações públicas detalhadas, sobre origem dos recursos e destino dos repasses, e não apenas a afirmação de que o dinheiro era privado. O mesmo rigor vale para qualquer governo ou partido. O cuidado com prazos e cooperação internacional é legítimo, mas inquéritos longos em plena campanha pedem do STF e da PF critério e publicidade para não virarem arma eleitoral de nenhum lado.