Dois dias depois do desabamento do prédio de quatro andares na Rua Maria Joaquina, no Brás, região central de São Paulo, o que mais chama atenção nas apurações é o peso da mercadoria que estava armazenada no imóvel. Segundo o boletim de ocorrência citado pelo SpaceMoney, trabalhadores estimaram toneladas de tecido nos andares superiores. A perícia ainda não concluiu a causa, e os números abaixo vêm de relatos registrados no boletim, não de laudo técnico.

O que diz o boletim de ocorrência

De acordo com o SpaceMoney, o documento traz o depoimento de um auxiliar da operação, que estimou entre 1,6 mil e 1,8 mil bobinas no imóvel no dia do acidente, com rolos de 10 a 15 quilos. Cada trabalhador levava dois ou três rolos de cada vez. O mesmo boletim registra a versão do responsável pela contratação da equipe: a loja teria recebido quatro cargas nos 15 dias anteriores ao desabamento, cada uma com 1,2 mil a 1,5 mil bobinas, em rolos de 5 a 8 quilos. Pelas estimativas citadas pela reportagem, isso equivale a 6 a 12 toneladas por entrega.

Há divergência entre os relatos sobre o peso por rolo e sobre a carga total, e um trabalhador falou em 8 a 12 toneladas de tecido nos pavimentos superiores. Por isso, os valores devem ser lidos como estimativas de quem estava no local.

Escritório que virou armazém

A investigação inicial, ainda segundo o SpaceMoney, indica que a edificação foi concebida para uso de escritórios, mas funcionava como armazém de tecidos trazidos da China. O imóvel não tinha Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros (AVCB) regular, informação confirmada pela corporação, e, segundo a Prefeitura, também não tinha alvará de funcionamento válido.

A hipótese mais provável é de excesso de peso, e a queda teria começado no mezanino. O secretário da Segurança Pública, Osvaldo Nico Gonçalves, disse que a perícia ainda vai apontar a causa, mas que a queda começou no mezanino, "onde ela colocou muito peso", referindo-se à dona da loja. O prefeito Ricardo Nunes (MDB) disse que a suspeita, "a se confirmar ainda", é de excesso de peso. A capitã Karoline Burunsizian, porta-voz dos bombeiros, afirmou que caberá à perícia definir as razões do colapso.

A identidade da proprietária não foi divulgada e as reportagens consultadas não trazem manifestação dela ou de sua defesa. Ninguém foi acusado formalmente até aqui. A Polícia Civil concentra a apuração.

Rachaduras e estalos, segundo um trabalhador

O carregador Edmilson Miranda Silva, de 35 anos, que estava no prédio, contou que a construção já mostrava rachaduras e que saiu depois de ouvir estalos e perceber que a estrutura começava a ceder. Segundo ele, outros galpões da região usados para guardar e descarregar mercadorias teriam condições parecidas. É o relato de uma pessoa, não uma constatação oficial. Outros sobreviventes disseram ao Estadão e ao DGABC que os tecidos ajudaram a segurar parte da estrutura enquanto ela cedia.

Buscas e balanço

Dos 35 trabalhadores que estavam no prédio, 8 saíram por conta própria e 27 foram resgatados, segundo os bombeiros. Quatro foram levados à UPA da Mooca com ferimentos leves. Duas mulheres, mãe e filha responsáveis pelo comércio, também estavam no local, e colegas relataram a presença de um homem que teria entrado para usar o banheiro, conforme o SpaceMoney.

No sábado (7), as buscas recomeçaram às 6h30, com uma retroescavadeira da Prefeitura para remover escombros e abrir acesso à área dos fundos. Os cães farejadores que sinalizaram a possibilidade de alguém sob os destroços na sexta não deram novo alerta. O tenente-coronel Rodrigo Barelli, comandante do 1º Grupamento de Bombeiros, disse que a chance de haver vítima soterrada é pequena e que nenhum parente procurou as autoridades para relatar desaparecimento. A limpeza do terreno deve durar de dois a três dias, segundo o comandante, e a chuva atrasou os trabalhos.

A Defesa Civil interditou imóveis vizinhos. O da esquerda foi o mais atingido, e uma avaliação preliminar indica que o da direita poderá voltar a ser usado depois de reforma. A Clay Têxtil, ao lado, recebeu auto de interdição.

O contexto: segundo desabamento grave em menos de dois meses

Segundo o DGABC e o InfoMoney, é o segundo desabamento grave na capital em menos de 60 dias. Em 12 de setembro, seis pessoas morreram quando um prédio na Penha, também na zona leste, caiu sobre uma casa. Naquele caso, um homem apontado como sócio oculto da construtora foi preso temporariamente. Os casos são distintos: no Brás não há mortes confirmadas e a causa ainda depende de perícia.

O que vem a seguir

Ficam pendentes o laudo da perícia sobre a causa do colapso, a conclusão das buscas, a definição das responsabilidades pela falta de AVCB e de alvará e o destino dos imóveis interditados. Quem tiver informações pode procurar a Polícia Civil.

Veja a cobertura anterior: Brás: bombeiros retomam buscas e Defesa Civil interdita imóveis vizinhos.