O serviço de checagem Fato ou Fake, do Grupo Globo, verificou declarações feitas por Flávio Bolsonaro (PL) e Lula (PT) no debate da TV Globo, na sexta-feira (23). Segundo o g1, mais de 30 jornalistas participaram do trabalho, publicado também em O Globo, Valor Econômico, Extra e CBN. A seguir, algumas das frases analisadas e a classificação dada pela equipe de checagem; as conclusões são do Fato ou Fake, não do Tendência News.

Falas de Flávio Bolsonaro

  • Vídeo de Jair Bolsonaro sobre falta de ar na pandemia (#FAKE). Flávio disse que o pai criticava a orientação de esperar a falta de ar para ir ao hospital e que, na época, "não tinha vacina". O Fato ou Fake afirma que o vídeo publicado no Instagram do candidato durante o debate é uma versão editada de uma live de 18 de março de 2021, com 30 segundos cortados, e que a vacinação já havia começado em 17 de janeiro daquele ano, em São Paulo, com a CoronaVac autorizada pela Anvisa. No dia da live, segundo o consórcio de veículos de imprensa, o país registrou 2.659 mortes por Covid-19, somando 287.795 óbitos.
  • Obras inacabadas (#FATO). Flávio disse que o governo Bolsonaro recebeu cerca de 14 mil obras inacabadas e entregou pouco mais de 8 mil. A checagem cita auditoria do TCU de 2019 (Acórdão 1079/2019) com 14.403 empreendimentos paralisados e o painel do tribunal, que indicava 8.674 em agosto de 2022.
  • "11,5 mil obras paralisadas" no governo atual (#FAKE). Flávio atribuiu ao TCU um relatório com mais de 11,5 mil obras paralisadas. O painel do tribunal indica 4.215 obras federais paralisadas em abril de 2026, com R$ 16,2 bilhões previstos, dado que não abrange todas as obras do país.
  • Bolsa Família de R$ 600 (#NÃO É BEM ASSIM). O benefício chegou a R$ 600 em 2022, mas, segundo a checagem, a elevação de R$ 400 para R$ 600 veio de emenda constitucional aprovada pelo Congresso (EC 123/2022), embora a primeira etapa, de R$ 400, tenha nascido de medida provisória de Bolsonaro.
  • Transposição do São Francisco (#NÃO É BEM ASSIM). Flávio disse que Lula prometeu entregar a obra em 2009 e em 2014 e que quem a concluiu foi Jair Bolsonaro. O Fato ou Fake afirma que os prazos do cronograma original eram 2010 (Eixo Leste) e 2012 (Eixo Norte), que o Eixo Leste foi inaugurado em 2017, no governo Temer, e que Bolsonaro concluiu etapas do Eixo Norte; ramais complementares seguem em construção.
  • Internet como infraestrutura (#NÃO É BEM ASSIM). Os números citados (21,3 mil pontos de acesso e mais de 11 milhões de pessoas atendidas pelo Wi-Fi Brasil) batem com o NIC.br, mas parte das conexões já existia antes de 2019: em 2017 o programa Gesac tinha cerca de 11 mil.

Falas de Lula

  • Marco do saneamento (#FATO). Lula disse que a bancada do PT votou contra o marco legal. A checagem confirma: na Câmara, em 11 de dezembro de 2019, os 43 petistas presentes votaram contra (aprovação por 276 a 124), e no Senado, em 24 de junho de 2020, os seis senadores do PT também (65 a 13). A lei foi sancionada por Bolsonaro em julho de 2020.
  • Números do saneamento (ressalva). O Fato ou Fake observa que Lula confundiu coleta com tratamento de esgoto e que a estimativa de 40 milhões sem água tratada é maior que a do Instituto Trata Brasil, de cerca de 33 milhões (dados de 2024). O instituto aponta 90 milhões sem coleta de esgoto.
  • Milei e a Argentina (#FATO). A inflação em 12 meses era de 211,4% quando Javier Milei tomou posse, em dezembro de 2023, e o banco central argentino fixou juros de 100% ao ano em 18 de dezembro daquele ano.
  • Apostas on-line, as "bets" (#NÃO É BEM ASSIM). Em relação à frase de Flávio de que Lula é "o pai do Tigrinho", o Fato ou Fake afirma que não é verdade que o presidente tenha criado as apostas de quota fixa.

Como ler essas checagens

Cada classificação é um julgamento do serviço de checagem do Grupo Globo, com a metodologia e os documentos citados na matéria original. As campanhas costumam contestar enquadramentos; no caso do vídeo, o material editado foi publicado pelo próprio perfil do candidato, e o texto original do g1 traz o trecho integral da live para consulta. A matéria completa traz outras declarações além das aqui resumidas.

Análise

Esta seção é a leitura editorial do Tendência News, que adota uma linha liberal.

Os dois candidatos tiveram números corretos e números inflados no mesmo debate, o que reforça um ponto simples: dados públicos de órgãos independentes, como TCU, Banco Central e institutos de pesquisa, são o melhor antídoto contra a disputa de narrativas. Um eleitorado informado por fontes verificáveis exige mais de qualquer governo, de qualquer partido, e a transparência estatística, o acesso aos painéis do TCU e a prestação de contas sobre obras e programas deveriam ser tratadas como prioridade permanente, e não como assunto de campanha.